Buscar
  • PET Eng. de Produção

Meditar para produzir

Atualizado: 26 de Mar de 2018


A antiga prática oriental chega às empresas com uma nova finalidade – acalmar mentes e turbinar desempenhos.

Tornar uma rotina


Todos os dias, às 11h30 e às 16h30, a iluminação é reduzida em parte do 8º andar de um moderno prédio de escritórios em São Paulo. Não é a pausa para o almoço nem o final do expediente para os funcionários da Mead Johnson Nutrition, uma empresa multinacional de produtos alimentícios. É o sinal para um momento tão importante para eles quanto o intervalo do almoço e o momento de ir embora. É hora de meditar. Reunido numa sala, o grupo se senta e fecha os olhos. Pelos próximos 20 minutos, as metas de venda, o controle de orçamento e as novas estratégias de mercado dão lugar na cabeça a um mantra, a repetição de palavras recitadas mentalmente, de maneira contínua, até a mente aquietar, e os pensamentos, por assim dizer, silenciarem.

Cada um tem seu mantra individual, de acordo com uma técnica de meditação criada na Índia nos anos 1950. Desde que a prática foi adotada na Mead Johnson Nutrition, há dois anos, 42 dos 60 funcionários do escritório fizeram o curso, subsidiado pela empresa. “Aprimoramos nossa capacidade de lidar com situações estressantes”, diz o argentino Nestor Sequeiros, de 46 anos, presidente da empresa no Brasil e responsável por introduzir a meditação na rotina corporativa. Após morar na Ásia e observar os bons resultados da prática nas fábricas de lá, ele resolveu incorporar o hábito. Sequeiros é um pioneiro. Ele não está sozinho.


Criatividade


A meditação produz seus efeitos até sobre uma capacidade subjetiva valiosa: a criatividade. Técnicas de meditação que consistem em prestar atenção ao fluxo de pensamento, como ele se forma e desaparece na mente, estimulam o surgimento de ideias. “Essas técnicas ensinam o cérebro a se soltar”, diz o psicólogo Bernhard Hommel, da Universidade de Leiden, na Holanda. Ele é autor de um estudo em que voluntários tinham de encontrar o maior número de usos para objetos tão diferentes quanto um tijolo e uma garrafa. Aqueles que praticavam meditação contemplativa, que se concentra nas divagações da mente, tiveram um desempenho melhor que os adeptos de práticas de foco, que concentram a atenção num mantra ou num objeto. A boa notícia é que qualquer técnica pode ajudar. “A divisão nessas categorias é feita por razões de estudo”, afirma a pesquisadora Camila Vorkapic, que estuda meditação em seu pós-doutorado na Universidade Federal de Sergipe. “Na prática, cada tipo de meditação mistura um pouco das técnicas de contemplação e de concentração”.

A meditação ensina a se concentrar, por isso é capaz de desenvolver a capacidade de tomar decisões, ter novas ideias. Pode até melhorar o resultado de estudantes em testes de memória e compreensão de texto, como mostrou um estudo da Universidade da Califórnia, publicado no ano passado. Ao prestarmos atenção ao que fazemos, conseguimos ir fundo na tarefa e realizá-la com mais eficiência.


Crescimento de técnicas

A popularização de um tipo de meditação que ressalta apenas os aspectos científicos da técnica também foi decisiva para expandir suas fronteiras. Chamada em inglês de mindfulness, é mais conhecida no Brasil por “atenção plena”. Ela não tem nada do que o neurocientista americano Sam Harris, assim como muitos céticos, chama de “encantamentos antigos” – mantras e explicações espirituais. Os praticantes da atenção plena se concentram na própria respiração e tomam consciência das sensações do corpo para interromper o fluxo de pensamentos. Essa abordagem foi popularizada pelo médico americano Jon Kabat-Zinn, da Universidade de Massachusetts. Em 1979, ele pesquisava um método sem restrições de crenças para usar contra a ansiedade e a dor.

Parece contraditório que as técnicas de meditação tenham virado uma ferramenta em prol da competitividade. Elas foram concebidas por filosofias orientais com o objetivo de fomentar o autoconhecimento e o respeito mútuo entre os seres humanos. Para os puristas, essa apropriação é quase uma blasfêmia. Para os adeptos modernos, trata-se de objetivos não antagônicos, totalmente conciliáveis. O empresário Ricardo Glass, de 40 anos, encara essa dualidade sem subterfúgios. Adepto da meditação na vida pessoal, ele estuda a implantação de um programa em sua empresa de tratamento de resíduos, a Okena, em São Paulo. “Há altruísmo na ideia de ensinar a meditar, porque é uma maneira de melhorar o bem-estar”, diz Glass. A vantagem é que esse altruísmo também traz bons resultados. “Aumentar o número de pessoas felizes torna o ambiente mais agradável e produtivo. ”

Resumir a meditação somente a ganhos de produtividade seria um equívoco. Seus efeitos cientificamente demonstráveis extrapolam as baias das empresas e atingem a vida pessoal e a saúde de quem a pratica no trabalho. A ciência explica por que a meditação gera o bem-estar que se traduz em produtividade, além de diversos benefícios para a saúde. Pesquisas sugerem efeitos tão profundos que alteram a atividade de genes que regulam o impacto do estresse no organismo. É um efeito importante para quem vive as pressões da vida corporativa. Seu mecanismo é perfeitamente físico: a meditação reduz a função dos genes associados à inflamação, uma resposta comum do corpo ao estresse. Tornam-se mais ativos os genes que ajudam a célula a obter energia. A alteração pode explicar o bem-estar em termos químicos.


Tipos de meditação


De acordo com Rubens Tavares, coordenador do Núcleo Avançado de Saúde, Ciência e Espiritualidade da Universidade Federal de Minas Gerais, existem muitos tipos de meditação, sendo a maioria com origem em antigas tradições religiosas e espirituais. Uma boa parte delas praticante instrui seus adeptos a tornarem-se conscientes de pensamentos e sentimentos e observá-los de forma livre. Neste sentido, o interesse das pessoas cresce na medida em que encontram nessas técnicas uma alternativa interessante para alcançar qualidade de vida.

— Os próprios pacientes demandam e desejam intervenções complementares. Não se defende o abandono da medicina tradicional, mas há estudos científicos cada vez mais sérios sobre o uso das terapias complementares concomitantemente ao tratamento convencional. A saúde não pode ser vista puramente como a ausência de doença, mas sim como um estado de bem-estar biopsicossocial, que proporcione qualidade de vida — comenta ele




Conclusão


Talvez a maior mudança promovida pela meditação – dentro e fora dos escritórios – seja mostrar que, em vez de ocupar a mente incessantemente, é preciso acalmá-la, com método e concentração. É uma mudança radical na maneira de encararmos nossa lista de tarefas e obrigaçõ

es cotidianas. “Estamos descobrindo que, além de fazer, também precisamos ser”, diz Gordhamer, o americano que, em seus seminários, ensina executivos a valorizar a meditação. “Com ela, todo mundo ganha: as empresas e os funcionários. ”

A meditação não é exclusividade de belos ambientes ao ar livre ou de salas brancas com relaxantes músicas de fundo. A meditação não é uma religião ou um modismo new age. É neurociência, um método que permite se conectar fortemente com o momento presente, de maneira que a mente funcione com maior coerência, ao mesmo tempo em que o corpo adquire profundo repouso. A meditação pode ser praticada em qualquer lugar, por aqueles que desejam combater a falta de produtividade e estresse, afim de viver com qualidade. Muito além de promover o melhor rendimento e a saúde dos funcionários, a meditação nas empresas promove líderes mais atentos, ações realizadas com assertividade, equilíbrio, autocorreção e clareza para expor ideias. A meditação também atinge a vida pessoal de cada indivíduo, promovendo profundas transformações que refletem na área profissional.


Obrigado pela leitura! :)

Escrito por Lucas Khoury.




119 visualizações

© Desenvolvido pelo grupo de Marketing 2017.2 e revisado pelo grupo de Marketing 2020.1

  • Black Facebook Icon
  • Black LinkedIn Icon
  • Black Instagram Icon