• PET Eng. de Produção

Mulheres e pandemia: a conta que não fecha


Este período atípico de quarentena tem pautado diversas discussões: o desafio do trabalho remoto, as dificuldades de aulas à distância, o impacto econômico da pandemia, e, dentro da Engenharia de Produção, o tema afunila mais ainda: como gerenciar projetos à distância? Como reposicionar seu negócio? Com tanta coisa em foco, uma coisa ou outra têm passado batidas - algumas que não podemos nos dar ao luxo de não discutir.


“Em quarentena, mulheres encaram desemprego e sobrecarga emocional”


“Trabalhadoras e suas famílias precisam de mais apoio na resposta à Covid-19”


“Mulheres fazem jornada tripla, e home office amplia desigualdade de gênero na Justiça”


E, por fim, o artigo que motivou esse texto:


“Mulheres da academia têm submetido menos artigos durante coronavírus. ‘Nunca vi nada como isso’, disse um editor. Homens têm submetido 50 por cento a mais do que normalmente submetem”


E esse último título é o que mais chama atenção: não só as mulheres estão produzindo menos, como os homens estão produzindo mais. Existe aí uma equação subentendida que engloba uma variável de obrigações e outra variável de tempo, inversamente proporcionais. Ao sobrar tempo a alguém para alavancar a carreira, significa que a outro alguém está faltando tempo por cumprir as obrigações além das suas próprias. Por um lado, a superprodutividade masculina; por outro, a sobrecarga feminina. A conta só fecha assim.


Confesso que fiquei sabendo do artigo por meio de uma publicação no Instagram, cuja legenda, dentre tantas outras coisas, falava o seguinte: “se a desigualdade de gênero no trabalho é pesada, em casa é uma voadora na cara. em tempos de quarentena 99% de todas as mulheres que conheço estão absurdamente mais sobrecarregadas, exaustas. (quantos .pdf de brincadeiras, receitas e truques de faxina vc recebeu de homens? eu? zero.). e a casa reflete no trabalho, não tem milagre.”


Isso faz um pouco mais de sentido quando consideramos a jornada dupla - ou tripla - feminina, que já vem sendo debatida há algum tempo (se você não está familiarizado com o tema, o Boston Consulting Group tem um estudo bem bacana sobre isso) e o cenário de confinamento evidencia ainda mais esse contraste.


O artigo em foco traz um trecho que ilustra bem essa situação:


“Pelo lado bom” diz o colega, sobre sua experiência “[a quarentena] m e dá tempo para concentrar em escrever”
A Lev quis gritar.
“Aquilo soou como luxo,” ela respondeu “eu não consigo nem imaginar.”

Sob esse prisma, ainda, podemos levantar uma questão curiosa: a luta feminina (e feminista) busca se equiparar às condições de trabalho dos homens - vale ressaltar que o IBGE em 2018, apontou que nós, mulheres, ainda ganhamos 20,5% menos. Mas, uma vez que alcancemos esse patamar de igualdade podendo dedicar muito mais tempo ao trabalho, todas as outras atividades -tanto em relação à casa quanto em relação a filhos, quando for o caso- que tem sobrecarregado as mulheres, ficam a cargo de quem, então? Agora, a conta não fecha mais.


“(...) muitos trabalhadores que estão exaustos e são mal pagos aceitarão de muito bom grado que a mulher seja completamente responsável pelo cuidado da criança,” e da casa, “ainda que a mulher esteja exausta e seja mal paga.”

A escritora bell hooks (sim, em letras minúsculas) consegue sintetizar essa ideia muito bem na obra “O feminismo é para todo mundo: políticas arrebatadoras” (fica, inclusive, a indicação de leitura! Rápida, simples e completa). A verdade é que nós precisamos questionar as relações de trabalho como um todo para, então, podermos superar essa problemática que é a sobrecarga feminina, evidenciada na quarentena.


Até aqui, espero que estejamos no mesmo pé na seguinte questão: falta tempo na equação para igualar a condição de trabalho feminina à masculina. E é agora que eu e você, enquanto aspirantes a engenheiros de produção, devemos entender como atuar em favor dessa causa. Quem melhor para otimizar tempos do que a gente?! Não vou aqui falar sobre TRF nem 5S, ou dos princípios do Lean, mas sim sobre o que fazer com esse tempo que se ganha. Vários de nós seremos, além de engenheiros de produção, gestores. E é fundamental termos em mente que, tão mais que trabalhadores (ou colaboradores, pro bem do clima organizacional) temos pessoas no outro lado dessa relação laboral - várias delas, mulheres.


“‘As empresas têm um papel fundamental a desempenhar para garantir o bem-estar das funcionárias e atender às necessidades diferenciadas das mulheres em suas cadeias de suprimentos e base de clientes‘, disse Anna Falth, chefa da equipe da ONU Mulheres para os Princípios de Empoderamento das Mulheres”

Ter consciência do que fazer com esse tempo adicionado à equação é fundamental.


Obrigada pela leitura!

Por Maria Eduarda Furtado


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